Dolores Duran (1930-1959), a cantora e compositora que legou à música
popular brasileira sucessos como A Noite do Meu Bem, Por Causa de Você e
Estrada do Sol, entre outras canções, foi uma mulher muito à frente de
seu tempo. Mesmo tendo cursado apenas o então curso primário, a carioca
Adiléia Silva da Rocha – o verdadeiro nome da cantora – era bem
informada, culta, politizada e autodidata em idiomas.
A vida curta e intensa da estrela que morreu de um enfarte aos 29
anos, no auge da carreira, está contada no livro Dolores Duran: A Noite e
as Canções de Uma Mulher Fascinante, que o jornalista e pesquisador
musical Rodrigo Faour lançou hoje (8), às 19h, pela Editora Record, na
Livraria da Travessa do Shopping Leblon, na zona sul do Rio. A
biografia, além de esmiuçar as desventuras amorosas, o comportamento
boêmio e os problemas pessoais da cantora, traça também um painel do Rio
de Janeiro e do Brasil na década de 1950.
Foram mais de 70 entrevistados, entre os que conviveram com a
artista, admiradores e nomes da música que contribuíram para imortalizar
a obra de Dolores que, apesar de reduzida, teve cerca de 850
regravações até hoje. “Mergulhei fundo para conseguir entrevistar o
máximo de pessoas possíveis e recorrer a todo tipo de fonte disponível
dos que haviam privado com ela, mas já não estavam mais entre nós”,
disse Faour.
Produtor, entre 2009 e 2010, de uma caixa de oito CDs com as músicas
compostas ou apenas interpretadas por Dolores Duran, Faour, de 40 anos,
teve nesse trabalho a inspiração para escrever a biografia. “Antes, eu
achava a Dolores basicamente uma grande compositora e letrista, que
tinha também algumas boas gravações como cantora. Desde que comecei a
colher os depoimentos para a caixa de CDs, isso mudou”, ressaltou.
Em sua imersão na vida da artista, o autor fez várias descobertas.
“Ela era intelectual, lia os grandes pensadores, escritores e poetas
estrangeiros, alguns no idioma original. Era também politizada – chegou a
ser simpatizante do PCB”, revelou. O bom gosto na escolha do
repertório, muito acima da maioria dos intérpretes da década, também
chamaram a atenção de Faour. “Não é pouco para alguém que morreu de
enfarte aos 29 anos”, disse.
Autora de canções e letras em que o amor é cantado muitas vezes de
forma triste e melancólica, Dolores Duran foi uma mulher divertida,
irônica e namoradeira, que vivia intensamente a noite carioca. Segundo
Faour, ela sabia que tinha um problema congênito no coração e pressentia
que sua vida não seria longa.
“Além desse insight, há um componente do acaso que fez dela uma
pessoa absolutamente genial e precoce. A única personalidade que pode
ser comparada a ela por esses quesitos é Noel Rosa, que morreu aos 26
anos”, disse Faour, que como escritor já publicou as biografias de Cauby
Peixoto e Claudette Soares, um livro sobre a Revista do Rádio e a
História Sexual da MPB, trabalho pioneiro sobre a evolução do
comportamento sexual nas letras da canção da brasileira.

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